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O analógico tem o molho

O analógico tem o molho

Mensalmente reúno o time de tecnologia para o que batizamos de encontro analógico. Cada um traz a leitura de um artigo de sua livre escolha, para ajudar na reflexão sobre os desafios do dia a dia. Conversamos bastante e analisamos as ideias apresentadas, sem roteiro prévio ou meta específica. Sempre saímos desse momento mais conectados e com novas perspectivas sobre o trabalho. 

Além de produtiva e descontraída, a reunião tem o propósito de tirar a bitola que a inteligência artificial generativa tende a colocar sobre nosso olhar. Enquanto a IA avança sobre todas as áreas e processos, cresce a certeza de que há outra missão tão importante quanto a de aprender a dominá-la: não ser dominado por ela. 

Muita calma nessa hora. Não cogito cenários distópicos ou apocalipses cibernéticos. Minha preocupação é pé no chão e mira os prejuízos advindos do isolamento crescente que temos experimentado nos últimos tempos. Acompanhe. A primeira onda veio na pandemia, quando manter-se confinado fisicamente e presente digitalmente era questão de vida ou morte. Terminado o problema, a solução continuou. A IA chega como uma segunda e mais avassaladora onda de substituição de vivências humanas, coletivas e espontâneas por atividades virtuais, individuais e controladas. Nunca tivemos tantas oportunidades e meios de virar uma ilha.

A eficiência e a agilidade da inteligência artificial são incríveis e indispensáveis, mas não inofensivas. Para além de questões urgentes de empregabilidade, há efeitos na saúde e sociabilidade. O uso da IA pode afetar a capacidade de raciocínio, memória e concentração. Por mais elaborado que seja um prompt e por mais sofisticada que seja a evolução a partir da resposta da IA, o esforço mental envolvido nessa operação é pífio. Redigir uma mensagem por conta própria ou desenhar um plano do zero requer muito mais massa cinzenta. O que não usamos ou usamos pouco, atrofia. Não é chavão, é achado científico. 

A mesma lógica vale para as habilidades socioemocionais. Rápida e prestativa, a IA vem ocupando posição de confidente, terapeuta e consultora para assuntos de toda natureza. A interlocução com a máquina (note, não é por meio dela, mas com ela) transcorre sem tensões tipicamente humanas. Ela não demora nem discorda ou critica, só atende e elogia. Tanta conveniência tem seu preço: enfraquece habilidades essenciais como boa comunicação, resiliência e empatia. 

É fato que o voo do profissional do futuro será no modo IA. Ficar restrito a ela, porém, pode ser tão perigoso quanto ignorá-la. O sucesso aponta para organizações menos departamentalizadas, com saberes multidisciplinares, visão generalista e fluxos de trabalho altamente colaborativos. Preparar-se para esse cenário requer vivências diversificadas. Bagagens feitas apenas de teoria, técnica e especialização serão insuficientes. Saber falar, escutar, negociar, ousar, errar, aprender e persistir estarão no topo das competências mais valorizadas. Profissionais e empresas que somarem esforços para cultivar essas qualidades colherão bons resultados. 

Em algum momento, talvez antes do que imaginamos, haverá uma considerável força produtiva bem treinada para a IA e suas evoluções. Nesse ponto, o que era vantagem competitiva se tornará requisito básico. A construção de experiências e conhecimentos fora da IA será decisiva para fazer a diferença. Leitura, hobbies, fotografia, arte. As possibilidades para temperar a carreira com novos recursos e aprendizados são infinitas. O analógico tem o molho. Basta agitar e consumir sem moderação.

Autor(a): Pedro Martins Milanezi, VP of Media and Data da Monks no Brasil

 

As opiniões expressas neste artigo são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do IAB Brasil.

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