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Mulheres do Digital – Equidade de gênero: promover a igualdade é responsabilidade de quem?

Mulheres do Digital – Equidade de gênero: promover a igualdade é responsabilidade de quem?

Dada a crescente atenção que a Diversidade vem ganhando nos últimos tempos, tornou-se comum ver mais conversas, iniciativas e até campanhas sobre o tema. Tudo isso, claro, é muito relevante e necessário. Por isso – e aproveitando o mês comemorativo proposto pelo IAB Brasil -, resolvi dividir esta reflexão sobre o que entendemos estar ao nosso alcance para promover a inclusão do diferente no nosso dia a dia. 

Ok, todos concordam que a questão é importante, mas fomentá-la é responsabilidade de quem? Das empresas, sem dúvida, mas as organizações não tomam decisões sozinhas. Por mais que, às vezes, seja mais confortável dizermos que “a empresa decidiu que”, sabemos que não são os algoritmos que tomam este tipo de decisão, são os líderes. 

Então a responsabilidade é das lideranças? Sim, é verdade, mas diversos estudos já provaram que grupos pouco diversos pensam parecido. Logo, se a responsabilidade é apenas dos nossos líderes, vamos esperar que este grupo abra os olhos para uma questão latente do mercado e da sociedade simplesmente? Lamento informar que embora muita gente pense assim, a probabilidade disso acontecer é baixa e por diversas razões.

Pode ser que estejam enfrentando uma crise e todos os esforços precisam se concentrar nessa única coisa que determinará o crescimento do negócio. Pode ser também porque estão cientes que diversidade é importante, mas não visualizam a falta dela dentro do seu próprio negócio, uma vez que sabemos que a participação de mulheres em cargos de liderança não alcança a mesma representatividade que têm na distribuição populacional. 

Pessoas com características semelhantes pensam de forma semelhante e o que pode ser óbvio em números externos, como os do Global Gender Gap Report, é descartado como um reflexo de uma situação externa ou porque “na nossa empresa somos diferentes”. 

O relatório do Fórum Econômico Mundial (FEM) 2020 explora de várias maneiras como a desigualdade de gênero é um problema universal. Segundo o documento, o Brasil está na posição 92 do ranking que mede os abismos entre homens e mulheres, atrás de países como Suriname (77), El Salvador (80), Mongólia (79) e Etiópia (82). Ora, o tamanho da economia do Brasil supera em muito o PIB de todas essas nações, o que nos leva a pensar sobre quais os fatores que compõem essa lista. Você se surpreenderia se soubesse que o país da América do Sul com melhor colocação é a Nicarágua, que se mantém no top 5 com 0,804 – quanto mais próximo de 1, maior o equilíbrio e menor a desigualdade.

Para o FEM, o Índice Global de Desigualdade de Gênero é composto por quatro vertentes: Participação Econômica e Oportunidade; Retenção Escolar; Saúde e Sobrevivência; e Empoderamento Político. E acredite se quiser, nosso País está em 89º lugar quando analisamos Participação Econômica e Oportunidade, 35º em Retenção Escolar, 1º em Saúde e Sobrevivência (sim, mesmo com a realidade de uma mulher agredida a cada dois minutos*) e 104º em Empoderamento Político.

Estes ingredientes geram uma realidade em que não apenas a mulher tem baixa participação nos cargos de liderança corporativa, mas em outros tão importantes quanto este. Segundo a Unesco/UIS 2020, as mulheres são menos de 30% do total de cientistas no mundo. Em um recorte dentro da política brasileira, representamos menos de 15% dos cargos eletivos.

Ano passado comprei a edição comemorativa do Mês da Mulher da Forbes (aquela com a CEO grávida na capa). Lendo as histórias de vida de tantas personagens em posições de liderança, encontrei muitos elementos em comum. Naturalmente a competência e fibra, mas todas lembraram de figuras importantes em suas histórias: os aliados – não necessariamente homens, mas pessoas que ofereceram sua parceria para que elas pudessem alçar vôos maiores. 

O que faz um aliado? Em termos simples, aliado não é alguém que somente torce para que você alcance seus objetivos e contorne os obstáculos que aparecerem em seu caminho. Um aliado atua ativamente para minimizar o efeito destes obstáculos no seu trajeto. Um aliado em casa divide tarefas, essa parte vocês já sabem. Mas o que faz um aliado (independente de seu gênero) no ambiente de trabalho? Esta pessoa fala abertamente sobre as desigualdades quando elas se manifestam, esta pessoa faz perguntas sobre o que causa esta desigualdade e, se necessário, dialoga com os profissionais responsáveis quando há algum comportamento inadequado ou situação externa que ameace a integridade física ou emocional de alguém.

O que quero dizer é que uma mulher que se destaca profissionalmente é produto de seu próprio esforço, mas também de fatores críticos como ter alguém para dividir o fardo associado a todas as outras funções que estão impostas à ela na sociedade em que vivemos. Não falo só de cuidados com a casa ou filhos, mas de comportamentos e padrões físicos esperados (que atire a primeira pedra quem nunca ouviu que precisava sorrir mais). 

A equidade de gênero é uma questão que só se resolve quando todos tomam parte, não é uma luta apenas das mulheres. São muitas as interseccionalidades envolvidas. Para quem chegou ao final deste texto, deixo uma lição de casa: repense o quanto você pode convidar o seu ambiente a reconhecer que poderia estar fazendo mais pela promoção de equidade de gênero. Reconheça que a sua capacidade de promover mudanças nem sempre está vinculada a sua posição hierárquica. E caso ocupe uma posição dessas, faça dela um trampolim para a promoção de transformações efetivamente significativas. 

Convido todos também a um novo olhar: o que você está fazendo para promover a equidade de gênero fora da sua empresa? Pois embora seja fundamental que mulheres ocupem posições de liderança, não são apenas elas que precisam de visibilidade e escuta, são muitos os grupos excluídos. 

Por fim, se imponha ao se deparar com algo que está errado e busque educar-se. É difícil usar a sua voz quando você não é capaz de reconhecer a discriminação. Obrigada pela torcida, mas precisamos de um pouquinho mais. Venha para o campo!

* Fonte: Monitor da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher no Período de Isolamento Social, do Instituto de Segurança Pública (ISP)

 

Autora: Sabrina Balhes, Measurement Lead na Nielsen e presidente do Comitê de Mensuração do IAB Brasil